8 de agosto de 2016

PROJECTO 409

8.8.16
Hoje venho-vos falar deste, à falta de palavras para melhor o descrever, projecto de superação humana. Conheço o Pedro desde a minha infância, os nossos pais, já eles se conheciam desde a juventude, mas a nossa ligação, como não poderia deixar de ser foi com as bicicletas, foi nos primórdios do btt em Portugal, quando se fazia down-hill com bicicletas rígidas, modalidade só para os "duros", hoje em dia, as bicicletas mais parecem motos e passam por cima de tudo, no nosso tempo sofríamos, só para ficar em cima delas.

O Pedro sempre foi aquele que não tinha medo a descer, era sempre ele que abria o caminho para os que vinham atrás, às vezes não corria tão bem e lá ia uma visita ao hospital mais próximo, mas era e é, aquela pessoa que impunha respeito, pela sua destreza, pela seu espirito de aventura e sim pela sua "estupidez" natural, porque para fazer alguma das coisas que ele ainda faz temos de ter um quê de "estupidez", uma pessoa "normal" jamais faria algumas das coisas que ele fez ao longo da sua vida.

Entretanto veio a faculdade e houve algum afastamento mas nunca o esquecimento, lá nos vamos vendo uma vez ou outra, pois o Pedro foi estudar para Coimbra e por lá ficou, por lá trabalha, por lá constituiu familia. Escrevo esta linhas, porque o encontrei este domingo em Setúbal, mais uma vez a partilharmos a nossa paixão pelas duas rodas, a assistir à chegada da Volta a Portugal em bicicleta e no meio de muita conversa, partilhou comigo que ia fazer o IRONMAN a Barcelona . 

Aquilo que vocês não sabem é que o Pedro à uns anos atrás teve uma complicação de saúde que quase lhe tirou a vida e hoje saber que vai fazer um IRONMAN, UAU!!! Mas nada melhor que o Pedro para nos contar o que é o projecto 409.

"Com a avalanche de novos amigos aqui pela pagina de facebook, assaltou-me a ideia que muitos não sabem a origem disto tudo. Não é bonita, não é poética, mas é original. E bolas... É a minha. Faz parte da minha história de vida.

Há 5 anos, quando tinha 33, foi-me diagnosticada Polipose Adenomatosa Familiar. PAF para os amigos... Uma doença genética que consiste no crescimento de muitos (no meu relatório estavam como "incontáveis") pólipos no cólon. Um historial de cancro colo-rectal na família tinha-me levado a fazer exames por precaução. 10 dias depois fui operado. Uma colectomia total. Ou seja, foi-me retirado todo o cólon. De uma ponta à outra. Fiquei, na altura, com uma iliostomia de protecção. Ou seja, uma parte do intestino delgado ficou a sair pela barriga. Passei a usar um "saco". Um dos da foto.

Não é fácil manter a auto estima quando um dia se acorda com um saco colado na barriga, tubos enfiados por todo o lado, soros, antibióticos, drenos... É duro. 

Uma temporada nos Cuidados Intensivos valeram-me a perda de alguns quilos, em peso. No pior sentido possível.

Ao fim de um mês tive ordem de soltura da enfermaria do Serviço de Cirurgia dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Mas uma infecção da sutura, seguido de uma evisceração e uma reoperação de urgência custaram-me uma grande parte da energia que tive. Saí com 50kg. A primeira grande vitória foram fazer os 200 metros que separavam a porta do Hospital do carro estacionado. 3 paragens para descansar depois, lá consegui.

Esta foi a primeira vez que senti o ar fresco nos pulmões a entrar depois de um mês. As janelas dos Hospitais não abrem, por causa dos suicídios...
A recuperação foi longa e dolorosa.
É lixado quando descobrem que para se sentarem precisam de colocar uma almofada porque os ossos espetam na pele...
É lixado quando aos 33 anos precisam de ajuda para vestir e não se conseguem dobrar para atar os sapatos.
É lixado quando não conseguem comer porque vivem numa náusea permanente por causa das dores no abdómen.
É lixado quando se olham ao espelho e está lá outra pessoa que já não são vocês.
É lixado quando até a voz muda...

Dá para rir quando descobrem que algumas das visitas que tiveram foi porque os vossos amigos julgavam que se "estavam a despedir"...

Foram 6 meses de "baby steps". Fechado em casa. A reaprender quase tudo. A conquistar pequenos passos.

Aos poucos saí de casa. Primeiro para uma volta ao quarteirão. É lixado quando não têm nenhuma camada adiposa e qualquer corrente de ar parece que vem directamente do Polo Norte...

Ao fim de alguns meses a primeira voltinha de bicicleta. 15 minutos, acho eu. Voltei a morrer de sede.

Aos poucos descobre-se que a vida com um saco colado na barriga afinal pode existir. Com cuidados, muitos cuidados. Muitas novidades em relação à vida que anteriormente se levava.

É lixado é quando, mesmo já caminhando de costas direitas vos olham de lado...

É a esta altura que têm que decidir o que querem da vossa vida. Ou se escondem, ou vivem, ou vão à luta.

O momento em que fiz a minha escolha foi quando descobri, numa das muitas tardes que passei sozinho em casa, o IRONMAN. Que fascínio! Nadar 4km, pedalar 180km, correr 42km, orgulhar-me para o resto da vida.

Passei grande parte dos últimos 4 anos a tentar tornar-me na primeira pessoa no mundo a concluir um IRONMAN sem a totalidade do cólon. Desde a primeira vez que o anunciei e me olharam com condescendência até este ponto onde já estou inscrito na prova de Barcelona em Outubro, muito mudou. Abdiquei e tentei arranjar o máximo de ajuda que consegui. É tão bom quando descobrimos que temos amigos capazes de tudo para nos ajudar...

Precisei, outra vez, reaprender a correr, a comer, a hidratar com as especificidades de quem não tem um orgão e se propoe a concluir tamanha empreitada.

Pelo caminho, muitos km´s percorridos. O prazer da primeira Ultra Maratona e do primeiro Ultra Trail.

409 dias depois da primeira operação, a ultima. Onde me foi retirado o saco e me foi entregue de volta parte muito significativa da minha auto-estima.

Agora já sabem o porquê do 409. Sejam bem vindos ao maior projecto da minha vida."

Quanto a mim, resta-me desejar-te toda a sorte do mundo, que bem mereces e também gostava de te dizer para ires com calma, mas já sei que não vale a pena! 

Podem seguir o Pedro e o Projecto 409, aqui.


Today I come to you to talk about this, the lack of better words to describe it, human resilience project. I've known Peter since my childhood, our parents knew each other from youth, but our connection, as it should be was with the bike, to be more precise, the mountain biking the early days in Portugal, when it was down-hill with rigid bikes, only for "hard" men, today bicycles seem more like motorbikes and go over everything, in our time we suffered, just to be on them.

Pedro was always the one who was not afraid to go down, it was always he who opened the way for those behind, sometimes did not run so well and there was a visit to the nearest hospital, but it was and is the person who imposed respect for the skills, by his spirit of adventure and for his natural "stupidity", because to do some of the things he still does have to have a touch of "stupidity", a "normal" person would never do some of the things he did throughout his life.

However college came and there was some distance but never forgetting, we still see each other one time or another, since Peter went to study in Coimbra and there he stablished him self, there he works, there he constituted family. I write this lines because I run into him this  Sunday in Setubal, again to share our passion for the two wheels, to attend the arrival of the Tour of Portugal on bicycle and in the middle of a lot of talk, he shared with me that he would be doing the IRONMAN Barcelona .

What you do not know is that Pedro a few years ago had a health complication that almost took his life and today i know that he will make a IRONMAN, WOW !!! But nothing better than Peter to tell us what the project 409 is.

"With the avalanche of new friends here in the facebook page, assailed me the idea that many do not know the origin of it all. It's not pretty, is not poetic, but it is unique. And balls ... It's mine. It's part of my life's history.

5 years ago, when I was 33, I was diagnosed Adenomatous Polyposis Family. PAF to friends ... A genetic disease that is the growth of many (in my report were as "countless") polyps in the colon. A history of colorectal cancer in the family had taken me to do tests as a precaution. 10 days later I was operated. Total colectomy. In other words, I was removed the entire colon. Through. I was at the time with a iliostomia protection. That is, a part of the small intestine was outside the stomach. I started to use a "bag". One of the photo.

It is not easy to maintain self-esteem when one day you wake up with a bag taped to the stomach, stuffed tubes everywhere, serums, antibiotics, drains ... It's hard.

A season in Intensive Care were worth me losing a few kilos in weight. In the worst possible sense.

After a month, I had the order of release of the ward Surgery Service of the University Hospital of Coimbra. But an infection of the suture, followed by evisceration and urgent reoperation cost me a great deal of the energy I had. I got out with 50kg. The first major victory were making the 200 meters that separated the door from the car parked outside the Hospital. 3 stops to rest later, I managed.

This was the first time I felt the fresh air in the lungs to enter after a month. The windows of the hospitals do not open because of the suicides ...
The recovery was long and painful.
It's fucked up when you discover that to be seated you need to put a pillow because the bones prick the skin ...
It's fucked up when at the age of 33 you need help to dress and can not bend to tie your shoes.
It's fucked up when you can not eat because you live on a permanent nausea because of pain in the abdomen.
It's fucked up when you look in the mirror and there is another person who is no longer you.
It's fucked up when even the voice changes ...

You can laugh when you discover that some of the visitors you had where because your friends thought that "this is goodbye" ...

There were 6 months of "Baby Steps". Closed at home. The relearn of almost everything. The small steps win.

Gradually I left home. First for a return to the block. It's fucked up when you have no fat layer and any draft looks like it comes straight from the North Pole ...

After a few months the first spin bike. 15 minutes, I think. I came back dying of thirst.

Gradually discovers that life with a bag stuck in the belly after all can exist. With care, many care. Many new things about life that you previously took.

It's fucked up when, people walking back straight at you look away ...

It is at this point that you have to decide what you want from your life. Hide, or live, or go fight it.

The moment I made my choice was when I found out, one of the many afternoons spent alone at home, the IRONMAN. That fascination! Swim 4km, cycle 180km, run 42km, be proud of me for the rest of my life.

I spent much of the past four years trying to become the first person in the world to complete a IRONMAN without the entire colon. Since the first time announced and looked at me condescendingly to this point where I am already registered in the Barcelona race in October, much has changed. I abdicated and tried to get as much help as I could. It's so nice when we discover we have friends who do anything to help us ...

I had to, again, relearning how to run, to eat, to hydrate with the specifics of who does not have an organ and proposes to conclude such a thing.

Along the way, many km's traveled. The pleasure of the first Ultra Marathon and the first Ultra Trail.

409 days after the first operation, the last. Where I was taken off the bag and was handed back very significant part of my self-esteem.

Now you know why the 409. Welcome to the biggest project of my life. "

As for me, I can only wish you all the luck in the world, rightly deserved and also liked to tell you to go soft, but I know that is not worth it!

You can follow Peter and Project 409, here.

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