5 de julho de 2017

COMPETITIVIDADE DESPORTIVA NAS CRIANÇAS

5.7.17

Eu comecei a praticar desporto com 4 anos e desde então nunca mais parei... Ao longo destes anos deparei-me com todo o tipo de desportistas e com todo o tipo de pais de crianças desportistas. 

Antes mesmo de escrever sobre este assunto, decidi contactar um profissional e neste caso amigo, que me desse uma opinião técnica sobre o assunto, para fundamentar ou não a opinião que eu tenho e que diariamente aplico na educação dos meus filhos. Após uma atenta leitura do texto que o Hugo me enviou e que eu reproduzo na integra, no parágrafo seguinte, decidi que mais nada tinha a acrescentar, pois felizmente revejo-me em todos os pontos positivos, sem qualquer excepção.

"No desenvolvimento infantil postula-se que um bom crescimento é aquele cujas diferentes áreas desenvolvem-se harmoniosamente, não havendo áreas de primeira e áreas de segunda. Todas são importantes porque é no seu todo que há um equilíbrio.

Neste sentido, facilmente é defensável que a prática desportiva nas crianças é algo benéfico para o seu desenvolvimento, sobretudo numa sociedade cada vez mais sedentária e intelectualizada, onde a própria realidade aumentada coloca o corpo físico em segundo plano, comparativamente com a mente.

Contudo, quando se fala em competitividade desportiva nas crianças, tem que haver alguns cuidados porque desporto é uma coisa e competição é outra. 

O desporto tem geralmente alguma competitividade, mesmo que seja na desportiva, o que permite criar o desafio individual da criança se testar e evoluir naquela modalidade.

Seja um desporto individual ou em equipa, os ingredientes são constantes: o confronto com resultados, o definir objetivos, o treinar, o evoluir, o gerir frustrações e o celebrar vitórias. E isso é benéfico, se for bem doseado e tiver um bom acompanhamento educativo. Mas como em tudo na vida, o importante é que a criança faça desporto por si, para se sentir bem, e não por uma desejabilidade social excessiva.

Um caso comum de desejabilidade social excessiva, na prática desportiva infantil, é aquele onde há um excesso de projeções parentais, com pais que viram treinadores.

E se ser pai não é ser amigo, ser pai também não é ser treinador. O pai ou a mãe são as figuras vinculativas principais da criança, cujo amor é securizante e incondicional, e não depende de resultados desportivos. A expectativa dos pais é que a criança seja feliz e cresça saudavelmente e não que corresponda às necessidades projetivas parentais. Se assim fosse, estaríamos a inverter os papeis. 

O treinador, por outro lado, como um professor, é a figura educativa que ensina algo, define objetivos, avalia, confronta, e cria expectativas. Pedagogicamente um treinador também aceita a criança como ela é mas segue as regras e princípios duma modalidade desportiva.

Se os pais quiserem acompanhar a criança na sua prática desportiva, podem incentiva-la mas sugiro que igualmente façam desporto. Os pais esquecem-se frequentemente que a maior forma de ensinar é por modelagem e que os nossos filhos absorvem muito mas muito mais o que observam dos pais do que aquilo que ouvem.

Depois há a questão do ego. É bom estimular a auto-estima e o ego. Mas também é importante transmitir ensinamentos como falhar é igualmente bom porque só errando aprendemos a evoluir e a não sermos narcisistas. E esta significação positiva do erro a sociedade tem muitas dificuldades em transmitir e por isso cada vez há mais depressões e ansiedades, por uma ilusão de controlo e egos tipo balão.

Por último, recordo que competitividade deve ser tão importante como a cooperação. Aliás, os jovens muito estimulados para a competividade e não estimulados para a cooperação têm tendencialmente uma sensação de enorme vazio, insatisfação e solidão.

Termino, com um último desafio, este para quem gosta de competições e quiser chegar a um patamar mais elevado de consciência individual: ensine o seu filho (e a si próprio) a ficar feliz não só pelos resultados individuais, como igualmente pelos bons resultados do outro, mesmo que este seja um “rival”. Se ele conseguir isso espontaneamente, dê-lhe uma medalha de ouro porque atingiu o recorde humano de universalidade e inteligência emocional. E já agora, congratule-se por ter conseguido transmitir-lhe isso".

Bem-haja.

Hugo Santos, Psicólogo

psicologo@hugosantos.pt



I started practicing sport with 4 years and since then I have never stopped ... Over these years I have come across all kinds of sportsmen and all kinds of parents of children sportsmen.

Before I even write on this subject, I decided to contact a professional and in this case, my friend, to give me a technical opinion on the subject, whether or not to state the opinion I have and that I apply daily in the education of my children. After an attentive reading of the text that Hugo sent me and that I reproduce in full, in the following paragraph, I decided that nothing else had to add, because fortunately I see myself in all the positive points, without exception.

"In child development it is postulated that a good growth is one whose different areas develop harmoniously, not having areas of first and second areas. All are important because it is in its entirety that there is a balance.

In this sense, it is easily arguable that sports in children are beneficial to their development, especially in an increasingly sedentary and intellectualized society, where augmented reality itself places the physical body in the background compared to the mind.

However, when it comes to sports competitiveness in children, there has to be some care because sport is one thing and competition is different.

The sport usually has some competitiveness, even if it is in the sport, which allows to create the individual challenge of the child to test and to evolve in that modality.

Whether it is an individual or a team sport, the ingredients are constant: confronting results, setting goals, training, evolving, managing frustrations and celebrating victories. And this is beneficial if it is well dosed and has a good educational follow-up. But as in everything in life, the important thing is that the child does sport for himself, to feel good, and not for excessive social desirability.

A common case of excessive social desirability, in children's sport practice, is one where there is an excess of parental projections, with parents who have seen coaches.

And if being a father is not being a friend, being a parent is not being a coach either. The father or mother are the child's primary binding figures, whose love is secure and unconditional, and does not depend on sporting results. Parental expectation is that the child is happy and grows healthily and not that it matches the parental projective needs. If so, we would be reversing roles.

The coach, on the other hand, as a teacher, is the educational figure who teaches something, sets goals, evaluates, confronts, and creates expectations. Pedagogically a coach also accepts the child as he is but follows the rules and principles of a sporting modality.

If the parents want to accompany the child in their sport, they can encourage it but I suggest that they also do sport. Parents often forget that the best way to teach is by modeling and that our children absorb much more what they observe from their parents than what they hear.

Then there is the question of the ego. It is good to stimulate self-esteem and ego. But it is also important to convey teachings how to fail is equally good because only by erring do we learn to evolve and not to be narcissistic. And this positive meaning of error society has many difficulties in conveying and therefore there are more and more depressions and anxieties, for an illusion of control and balloon-type egos.

Finally, I would remind you that competitiveness must be as important as cooperation. In fact, young people who are highly stimulated for competitiveness and not stimulated for cooperation tend to have a sense of enormous emptiness, dissatisfaction and loneliness.

I end up with one last challenge, this for those who enjoy competitions and want to reach a higher level of individual awareness: teach your child (and himself) to be happy not only for the individual results, but also for the good results of the Other, even if it is a "rival". If he can do this spontaneously, give him a gold medal because he has achieved the human record of universality and emotional intelligence. And now, congratulate yourself for being able to convey this to you. "

Well, there.

Hugo Santos, Psychologist

Psicologo@hugosantos.pt

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